
Em 2002, a revista Free Radical Biology & Medicine de alto fator de impacto na área biológica, publicou um série de artigos sobre o estresse oxidativo e o envelhecimento. Um desses artigos, de autoria do Prof. Gustavo Barja de Quiroga Losada do Departamento de Fisiología da Universidad Complutense de Madrid, compara a longevidade de animais e os danos causados pelo estresse oxidativo. Trata-se de um assunto apaixonante sob uma abordagem competente que tentaremos resumir a seguir.
A teoria de Denham Harman proposta na década de 70 de que os radicais livres estão relacionados ao envelhecimento tem sido suportada por vários estudos, incluindo comparações entre espécies animais que apresentam diferentes velocidades de envelhecimento. Por exemplo, um passarinho e um rato apresentam similar tamanho corporal, porém o rato envelhece muito mais rápido que o passarinho. Por que ???
O primeiro ponto importante é que : Envelhecimento é um processo endógeno e progressivo. Isto é, está presente desde a infância e é determinado por fatores internos (dentro do nosso organismo). A velocidade com a qual iremos envelhecer e, portanto nosso potencial tempo de vida (longevidade) é principalmente determinado pelos genes e não pelo ambiente.
A idéia de que o envelhecimento poderia ser consequência do decréscimo no nível de antioxidantes foi rápidamente descartada, uma vez esse padrão não era observado em um grande número de espécies. Na realidade, os cientistas descobriram que tanto as enzimas como os compostos que exercem função antioxidante dentro do organismo estavam correlacionados negativamente com o tempo potencial de vida da espécie. Estranho??? Muito estranho , porque isso quer dizer que quanto mais antioxidantes a espécie tem dentro do organismo menor é sua potencial longevidade .. Por que????
Os cientistas concluíram que as espécies que produzem muitas espécies reativas (ou radicais livres) tem que ter muita atividade antioxidante também . E são essas espécies que teriam um tempo potencial de vida menor. Dessa forma, o tempo de vida e a velocidade de envelhecimento dependeriam da quantidade de radicais livres que o organismo produz e não dos antioxidantes . Portanto, não adianta nada ingerir mais antioxidantes visando envelhecer mais lentamente!
Antioxidantes tanto endógenos (produzidos no organismo) como exógenos (ingeridos a partir dos alimentos) protegem o organismo contra o excesso de radicais livres, principalmente àqueles formados por agentes externos. Desta forma, os antioxidantes aumentam a chance de sobrevivência sem interferir na longevidade potencial.
Se antioxidantes não retardam o envelhecimento, então qual é a relação entre o estresse oxidativo e o envelhecimento????
Para produzimos energia (ATP) precisamos respirar oxigênio, e nesse processo o organismo produz espécies reativas ou radicais livres. Fatores exógenos, como poluição, cigarro, exercício físico intenso, exposição à radiação, etc, também formam esses radicais. Parte desses radicais são inativados, mas outra parte fica livre e vai causar danos em diferentes moléculas. Quando a parte não inativada excede, tem-se o estresse oxidativo. Os cientistas observaram que as espécies que viviam mais tempo produziam menos radicais livres, independente da quantidade de oxigênio consumida. Por exemplo, apesar de um passarinho consumir muito oxigênio e ter uma alta taxa metabólica, ele produz menos radicais no processo respiratório e vive mais tempo que um rato, que tem tamanho físico similar. Em outras palavras, a longevidade máxima correlaciona-se melhor com a taxa de produção de radicais na mitocôndria (parte da célula onde ocorre a oxidação) que a taxa metabólica (velocidade na qual as reações ocorrem no organismo). Os radicais livres formados nesse processo irão causar danos ao DNA. Algumas enzimas reparam esses danos, porém a eficiência desse reparo reduz com a idade. Em um animal de vida curta, a velocidade de acúmulo de DNA não reparado (mutagênico) é muito maior que em um animal de vida longa. Além disso, os radicais também causam danos às proteínas e gorduras, favorecendo o desenvolvimento de diversas doenças degenerativas, como a aterosclerose.
Outro fator importante é que quanto mais gordura insaturada estiver presente na composição do organismo, maior é a facilidade dessas moléculas de gordura de serem atacadas pelos radicais livres, formando composto tóxicos ao organismo. Por exemplo, passarinhos que tem o mesmo tamanho físico e a mesma taxa metabólica que ratos, apresentam menor quantidade de gordura insaturada e portanto vivem mais. Esses 2 fatores estão reduzidos nos animais de vida longa e podem ser a causa do retardo no envelhecimento dessas espécies.
Em resumo, quando pensamos na velocidade com a qual a espécie humana envelhece, assim como quanto tempo poderemos viver, temos que ter ciência de que esses fatores são determinados pelos nossos genes, e são características de nossa espécie. Se envelhecemos mais lentamente e vivemos mais que um cachorro, isso deve-se ao fato de produzirmos menos radicais no processo respiratório e nossa gordura ser menos insaturada. Nesse caso, os antioxidantes nada podem fazer .... e pouco pode ser efetivamente manipulado sem prejuízo a outras funções do organismo.

A maior parte dessa matéria foi baseda no artigo descrito abaixo. Algumas informações básicas e analogias foram inseridas com objetivo de facilitar o entendimento do assunto pelos leitores.
09/08/2008
16/06/2009